Café descafeinado e Starbucks: o que aconteceu nos EUA e o que isso tem a ver com o Brasil?

Você pode ter visto nas redes sociais uma publicação afirmando que testes encontraram no café da Starbucks substâncias também utilizadas em produtos industriais, como removedores de tinta.

A história tem origem em um caso real. Mas a manchete, sozinha, pode levar a uma conclusão muito mais alarmante do que as evidências permitem.

Neste artigo, vamos separar o que foi efetivamente encontrado, o que está sendo alegado judicialmente e o que isso tem — ou não tem — a ver com o café vendido no Brasil.

O que aconteceu com a Starbucks nos Estados Unidos?

Em janeiro de 2026 foi ajuizada nos Estados Unidos uma ação coletiva contra a Starbucks.

Segundo a petição inicial, testes realizados pelo laboratório Eurofins EAG entre 14 e 17 de janeiro de 2025 detectaram três compostos em amostras do Starbucks Decaf House Blend Medium Roast Coffee:

  • diclorometano (methylene chloride): 22 partes por bilhão (ppb);
  • benzeno: 28 ppb;
  • tolueno: 87 ppb.

Esses números e a descrição dos testes constam da petição apresentada pelos autores da ação. Portanto, é importante fazer uma distinção: trata-se de resultados laboratoriais citados em um processo judicial, e não de uma decisão judicial definitiva estabelecendo que o produto causa danos à saúde. Grupo de Direito do Consumidor

Consultar a petição original do processo Williams v. Starbucks Corporation

Então havia “removedor de tinta” no café?

Essa é justamente a parte em que uma manchete pode distorcer a compreensão.

O diclorometano, também chamado de cloreto de metileno, possui diferentes aplicações industriais. Uma substância ter uso industrial, entretanto, não significa que um produto alimentar que contenha um resíduo dessa substância seja equivalente a consumir um produto industrial.

Em toxicologia e segurança de alimentos, não basta perguntar se determinada substância foi detectada. Também importam fatores como concentração, exposição e limites regulatórios.

É por isso que transformar “foi detectado um composto que também possui aplicações industriais” em “há removedor de tinta no seu café” produz uma mensagem muito mais assustadora — e muito menos precisa.

Por que o diclorometano aparece quando falamos de café descafeinado?

Para produzir café descafeinado é necessário retirar grande parte da cafeína dos grãos.

Existem diferentes processos industriais para isso. Alguns utilizam solventes; outros empregam métodos baseados em água ou dióxido de carbono (CO₂).

O diclorometano é uma das substâncias que historicamente podem ser utilizadas como solvente no processo de descafeinação.

Isso ajuda a entender por que o assunto não deve ser tratado simplesmente como se alguém tivesse deliberadamente “adicionado removedor” ao café pronto.

E o que a legislação brasileira diz?

Aqui há uma informação particularmente importante.

A regulamentação brasileira estabelece regras para aditivos e coadjuvantes de tecnologia utilizados em alimentos, incluindo condições de utilização e limites aplicáveis. Atualmente, essa estrutura é estabelecida pela RDC 778/2023 e pela Instrução Normativa 211/2023 da Anvisa. AnvisaLegis

A norma anterior, RDC 466/2021, já previa especificamente o uso de diclorometano para descafeinação e estabelecia limite máximo de resíduo de 2 mg/kg no café torrado. Essa RDC foi posteriormente revogada pela RDC 778/2023, razão pela qual não deve ser apresentada como a regulamentação vigente. AnvisaLegis

Consultar a regulamentação atual da Anvisa — IN 211/2023

E o Starbucks vendido no Brasil?

Aqui também precisamos evitar uma generalização.

O produto mencionado na ação americana é especificamente o Starbucks Decaf House Blend Medium Roast Coffee. Grupo de Direito do Consumidor

A Starbucks comercializa House Blend no mercado brasileiro, inclusive café torrado e moído e cápsulas, mas as páginas brasileiras desses produtos não os apresentam como o Decaf House Blend americano analisado no processo. Starbucks

Consultar Starbucks House Blend no Brasil

Ao mesmo tempo, existe produto descafeinado da marca no mercado brasileiro: o Starbucks Decaf Espresso Roast by Nespresso. Ele é apresentado oficialmente como café descafeinado, mas é outro produto, e não o Decaf House Blend citado na ação americana. Starbucks

Consultar Starbucks Decaf Espresso Roast no Brasil

Isso significa que existe o mesmo problema no Brasil?

Não encontramos evidência que permita afirmar isso.

O fato de um produto específico ter sido analisado nos Estados Unidos não permite automaticamente atribuir os mesmos resultados a outros produtos da marca comercializados no Brasil.

Da mesma maneira, também seria incorreto concluir, apenas com base nesse processo, que todo café descafeinado apresenta o mesmo perfil.

São produtos, processos, lotes e mercados que podem ser diferentes.

Café descafeinado faz mal?

A informação disponível sobre esse caso não permite chegar a essa conclusão geral.

“Café descafeinado” é uma categoria de produto, não um único método de fabricação.

Existem diferentes processos de descafeinação, incluindo técnicas que utilizam água, CO₂ ou solventes.

Por isso, para quem consome descafeinado e deseja conhecer melhor aquilo que está comprando, uma pergunta pode ser muito mais útil do que uma manchete alarmista:

“Qual método foi utilizado para descafeinar este café?”

O fabricante pode fornecer essa informação quando ela não estiver clara na embalagem ou em seu site.

Informação também é cuidado

Este caso é um bom exemplo de como conteúdos virais podem começar com um fato verdadeiro e, ainda assim, transmitir uma impressão exagerada quando contexto, concentração, produto analisado e situação regulatória ficam de fora.

Não precisamos ignorar resultados laboratoriais nem transformar toda detecção de uma substância em motivo para pânico.

Entre os dois extremos existe uma alternativa melhor: buscar a fonte, entender o contexto e fazer escolhas mais conscientes.

Essa é uma das propostas dos conteúdos educativos da All In Compras: traduzir assuntos relacionados a bem-estar e qualidade de vida de maneira simples, responsável e sem sensacionalismo.

Fontes e documentos para consulta

Petição inicial — Williams et al. v. Starbucks Corporation, processo 2:26-cv-00112

Anvisa — Instrução Normativa nº 211/2023, regulamentação vigente

Anvisa — RDC nº 466/2021, norma anterior posteriormente revogada

Starbucks at Home Brasil — House Blend torrado e moído

Starbucks at Home Brasil — Decaf Espresso Roast

Nota editorial: este conteúdo tem finalidade informativa. A existência de uma ação judicial e as alegações nela apresentadas não equivalem a uma decisão judicial definitiva nem, isoladamente, demonstram risco à saúde decorrente do consumo do produto.

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